segunda-feira, 28 de março de 2011

Para onde vai a Pfizer


Para a Pfizer, a maior empresa farmacêutica do mundo, 2011 será um ano de término e ressurreição. Em novembro deste ano, a fabricante do Lipitor, medicamento para colesterol responsável por US$ 12,5 bilhões de vendas anuais, vai perder a sua patente, nos Estados Unidos – no Brasil, isso já aconteceu.


No meio de uma onda que varre os direitos de exploração comercial exclusiva de muitas das drogas mais valiosas do mundo, nenhuma outra farmacêutica deverá sofrer tanto.

A Pfizer perderá, entre 2010 e 2013, patentes de remédios que garantem uma receita anual de US$ 29,2 bilhões, ilustrando uma ameaça que se espalha por todo o setor. É muito dinheiro, mesmo para uma empresa que fatura US$ 60 bilhões por ano.

As dez farmacêuticas mais afetadas pela tendência devem perder US$ 114 bilhões em patentes, no mesmo período, segundo pesquisa da Tufts University.

Em mercados competitivos, como o americano, a concorrência com fabricantes de genéricos fez o preço de um medicamento cair até mais de 85%, um ano após o fim da patente.

"O segmento ainda é lucrativo, mas os investidores avaliam o potencial de crescimento futuro”, afirma Kenneth Kaitin, diretor do Centro para Estudos de Desenvolvimento de Drogas da Tufts. “Por isso, as grandes farmacêuticas, as chamadas Big Pharma, perderam tanto valor de mercado nos últimos anos.”

Para não desbotar o azul do seu logotipo, a Pfizer precisa se mexer. E com urgência. Por seus prédios no campus de pesquisa e desenvolvimento em Cambridge, nas proximidades de Boston, herdados da compra da concorrente Wyeth, por US$ 68 bilhões, em 2009, há uma série de painéis com a frase “uma nova Pfizer”.

Mas a primeira mudança prática foi a inesperada substituição, em dezembro do ano passado, do CEO Jeffrey Kindler, com a promoção de Ian Read ao posto.

O novo comandante chegou prometendo aos investidores que a empresa gastaria menos em pesquisa e desenvolvimento. E mesmo assim criaria mais remédios.

Para entender como Read pretende fazer isso, é preciso conhecer algumas das causas que levaram as grandes farmacêuticas à crise atual.

Com a descoberta de remédios de grande capacidade de vendas, como o Viagra e o Lipitor (ambos da Pfizer), as empresas passaram a canalizar recursos quase que exclusivamente para a descoberta do próximo blockbuster.

A aposta se mostrou errada. As farmacêuticas imaginaram que apenas investir mais em pesquisas traria o retorno esperado. Mas, como o setor começou a migrar de drogas para doenças agudas para as de doenças crônicas, o resultado foi que os custos e o tempo exigidos para o desenvolvimento aumentaram. Um novo medicamento passou a exigir US$ 1,3 bilhão e até 15 anos para chegar ao mercado.

E pior: o índice de fracassos nas fases finais de desenvolvimento, depois de já terem consumido muitos anos de pesquisas e recursos financeiros, explodiu.

“Agora não vamos nos focar em inventar novos blockbusters, mas em atender às necessidades dos pacientes e de populações menores com grandes necessidades de novos medicamentos”, afirma Belén Carrillo-Rivas, diretora de projetos e estratégias de pesquisa e desenvolvimento da Pfizer.

O laboratório passará a investir em doenças inflamatórias, oncologia, vacinas, doenças genéticas raras e neurológicas. Essa diversificação tem a vantagem de eventualmente diminuir os riscos de apostar exageradamente em uma droga que, no fim, acaba nem chegando ao mercado.

O laboratório espera que essa outra meta seja atingida por meio da eliminação de equipes internas, que serão substituídas por parcerias com universidades, laboratórios e mesmo com outras empresas.

É uma estratégia de compartilhamento dos gastos em desenvolvimento, mas também do potencial de receitas futuras. A Pfizer também já fechou parcerias com a Glaxo, para pesquisas em HIV, e com a Ely Lilly e a Merck, para criar um grupo de pesquisas de câncer na Ásia. Ambos os acordos seriam impensáveis há alguns anos.

Em 2011, a Pfizer vai investir US$ 7 bilhões em pesquisa e desenvolvimento, 25% menos do que o ano passado. É uma nova cultura. Antes, grandes farmacêuticas preferiam falhar sozinhas do que ter de repartir o ganho de suas descobertas. Agora, elas estão proibidas de pensar assim, sob o risco de se tornarem carta fora do baralho na nova configuração do setor.

Jornalista: Carlos Eduardo Valim